• Lourenço Becco

Viúva Negra | de Cate Shortland



A indústria do entretenimento hollywoodiano em geral e sua subdivisão mais lucrativa, o gênero de filme de super-heróis, em particular podem ser tão machistas e patriarcais quanto o império soviético de outrora. Mas impérios caem e, a julgar pelo contexto que vem se desenhando nos últimos anos, os preconceitos também podem desabar. Desde sua obra pioneira, Homem de Ferro (2008), o Marvel Studios sempre ditou tendências, mas, no caso do protagonismo feminino, Kevin Feige e Cia se viram ultrapassados pela Distinta Concorrência, que, em 2017, deu ao público o primeiro blockbuster de super-heroína protagonizado pela primeira delas, Mulher-Maravilha (2017). A Marvel, desacostumada ao segundo lugar, apressou a produção de Capitã Marvel (2019). Difícil dizer, no entanto, o que é mais surpreendente: que o estúdio não tenha escolhido a Viúva Negra, que fora introduzida há uma década em Homem de Ferro 2 (2010) ou que seu filme-solo finalmente tenha sido produzido após a conclusão do arco da personagem em Vingadores: Ultimato (2019). Encarregada da direção, a australiana Cate Shortland, tendo que lidar tanto com o atraso narrativo do filme quanto com o atraso de lançamento devido à pandemia, imprime bem sua assinatura ao longa, ao menos até ele se tornar, no terceiro ato, o que ele não consegue escapar de ser, para o bem ou para o mal: um filme do MCU.


Viúva Negra, além de ser um filme deslocado no tempo, se mostra, desde o início, uma obra cuja tensão se localiza entre o estilo de uma diretora e as imposições de uma máquina de fazer sucessos de bilheteria em série. Cate Shortland parece ganhar a queda de braço no primeiro ato, o melhor da projeção, em que suas qualidades e seu pulso são mais visíveis. O prólogo, muito econômico e instigante, consegue estabelecer a situação apreensiva daquela família, reapresentar a protagonista (vivida aqui pela ótima Ever Anderson) e passar de uma sequência familiar para uma de alta voltagem sem nenhum entrave, o que deixa o espectador ansioso por mais, por saber qual seria o destino de Natasha e sua irmã na famigerada Sala Vermelha. No entanto, a sequência dos créditos iniciais, muito bem montada, ao som de um cover da já muito utilizada Smells Like Teen Spirit, se encarrega disso de uma forma que é visualmente interessante, porém narrativamente inócua. Mas o filme só está no começo, pensa o espectador, o roteiro, escrito por Eric Pearson a partir do argumento de Jac Schaeffer e Ned Benson, vai voltar a explorar isso. Certamente, mas não da maneira esperada.



Aliás, o único descuido da diretora nesse primeiro ato se dá justamente na forma óbvia como certo tema é ressaltado pela música e pela montagem. Indo para o autoexílio, a família de espiões russos passa por um campo de futebol americano, e a câmera focaliza um painel de luzes que formam a bandeira americana ao som de "America Pie", de Don McLean. Para ressaltar a falta que eles sentiriam do estilo de vida americano para uma audiência muitas vezes desatenta, só faltou mesmo tocar "The Star-Spangled Banner" com fogos de artifício ao fundo. Mas, Shortland logo se recupera e mostra que o mérito de sua direção está mesmo na interação entre os personagens, em especial as duas irmãs, Natasha e Yelena (a sensacional Florence Pugh), seja nas cenas de diálogo ou nas de ação. Em muitos momentos, um corte sutil, como o plano-detalhe de Natasha brincando com um elástico para mostrar seu desconforto é o que basta para humanizar a personagem. Além disso, os diálogos entre Natasha e Yelena são os melhores do filme (o que não se estende para o resto da família), fazendo exposição e desenvolvimento de personagem sem forçar a barra e se saindo bem até nos momentos de humor, como na cena em que Yelena critica a pose de super-herói de Natasha: além de a piada funcionar, ainda mostra que a irmã mais nova acompanhou a carreira da mais velha, demonstrando um certo despeito por seu sucesso.


A narrativa se eleva de fato com a presença de Pugh e suas interações com Johansson, que já se provou muito além de sua beleza física, não obstante a Viúva-Negra ter desempenhado o papel de femme fatale no início do MCU. Já Yelena é diferente; além do senso de humor, Pugh lhe confere uma personalidade que passa longe de ser uma cópia de Natasha, sendo mais falante e ácida. Mesmo quando em silêncio, a técnica de atuação dela se sobressai: até a respiração dela comunica algo (repare na sua expressão antes de explodir na cena do jantar). Já a ação do filme também encontra seu ponto alto com as duas na sequência de Budapeste, claramente inspirada na trilogia Jason Bourne: a luta entre as duas viúvas é seca, com o uso de objetos de cena como armas letais e da simetria de movimentos, reforçando o tema da duplicidade, presente ainda nas luta inicial com o Treinador, vilão visualmente muito interessante, mas desperdiçado ao longo da narrativa. Por fim, nas cenas de ação menos grandiloquentes, há um excesso de dublês digitais e de suspensão da descrença por que, em pelo menos três ocasiões, a protagonista, que não tem poderes, deveria ter morrido ou se incapacitado pelo menos. A tensão, enfim, nunca chega ao ápice, por que sabemos como certos o destino de Natasha dos outros filme e a utilização de Yelena em futuras obras do MCU.

É significativo, pois, que haja uma cena em que Natasha esteja assistindo (e citando de cor) diálogos de 007 Contra o Foguete da Morte (1979), já que, depois de flertar com Bourne no estilo de luta e com Missão Impossível no uso de locações e setpieces, Viúva-Negra se entrega ao tom espalhafatoso do filme do espião inglês. A partir do momento em que a família é reunida, tanto a ação quanto os diálogos mudam de tom e tornam-se mais exagerados. David Harbour se aproveita disso por que seu Guardião Vermelho já é hiperbólico; já Rachel Weisz parece estar interpretando uma personagem completamente diferente da do prólogo, aparentando estar drogada ou dispersa a maior parte do tempo, uma decisão equivocada, que tira muito do seu peso emocional. O humor volta a ser usado para "aliviar" uma cena mais séria, como a piada sobre a histerectomia à qual as Viúvas são submetidas, tema que já havia sido tratado com a gravidade que merece em Vingadores: Era de Ultron (2015). Falando no filme de Whedon, a Sala Vermelha, com todo o horror psicológico que a cerca, foi mostrada de forma mais eficiente no pesadelo/alucinação daquele filme. Aqui, ao invés de se aprofundar nos ganchos anteriores, como a personagem Madame B. (Julie Delpie), o roteiro opta por um monólogo expositivo do plano de um vilão muito desinteressante, vivido como uma caricatura por Ray Winstone, tudo digno de uma paródia de James Bond. É muito frustrante que, há anos, se aguarda por uma vislumbre mais aprofundado desse período que definiu a personagem-título, e os roteiristas trocam a oportunidade de fazê-lo em um filme-solo por exposição barata e uma sequência de créditos iniciais.



Entretanto, o mais decepcionante em relação ao ato final de Viúva-Negra é que ele trai não só o tom que foi estabelecido no prólogo, como também a premissa mais básica de qualquer filme de ação: as cenas grandiosas só têm impacto na medida em que se ancoram no investimento emocional para com os personagens. É difícil acreditar no envolvimento dramático da família quando o roteiro o baseia tão somente em uma música, um objeto de cena e uma frase de autoajuda repetida à la David Goyer. Aqui ninguém se sacrifica por ninguém (embora haja duas cenas que logram o espectador a pensar que sim), nem nada realmente tem peso, até literalmente, já que, replicando o final de Capitão América 2: Soldado Invernal (2014), uma estrutura gigantesca cai do céu, mas nenhum de seus detritos têm peso ou atinge alguém. Falta a percepção, logo, de que o impactante na aventura do Capitão América não era a queda do aeroporta-aviões, mas a relação entre Steve e Bucky. Rapidamente, o filme abraça com gosto todas as saídas fáceis da fórmula-Marvel, chegando à obrigatória cena pós-créditos, que faz o combo de interromper um momento dramático com uma piadinha sem graça e ainda estabelecer um projeto futuro do estúdio!



É lamentável para os seus fãs, portanto, que o filme-solo de Natasha Romanoff, por tanto tempo adiado, tenha começado de uma forma tão promissora e terminado tão formulaico, não obstante o talento de sua diretora e, principalmente a dedicação notável de sua intérprete, Scarlett Johansson, que, durante uma década, construiu essa personagem com uma interpretação sempre genuína e emocionante, como visto principalmente em Vingadores: Ultimato. Ela faz o mesmo aqui, embora nem sempre o diálogo a favoreça. De qualquer forma, o arco da personagem está concluído, e não seria ousado demais dizer que é o mais bem-estruturado do Universo Cinematográfico da Marvel, rivalizando com o de Steve Rogers, já que, por não ter tido uma sequência de filmes-solo, não havia contradição entre eles e os filmes dos Vingadores, como ocorreu com Tony Stark. A evolução da Viúva-Negra, portanto, também ocorre de forma metalinguística no cenário maior de como os filmes de super-heróis têm se alterado: de um símbolo sexual da guerra-fria, ela se tornou a mais tridimensional e humana entre os heróis mais poderosos da Terra.