• Lourenço Becco

The Matrix Resurrections | de Lana Wachowski



Matrix (1999), das irmãs Wachowski, é um clássico indiscutível, que, no limiar do século, comentou e moldou o zeitgeist de uma cultura pop efervescente e irrefreável. Não é inusitado, portanto, que, em uma época em que essa mesma cultura se volta cada vez mais sobre seu próprio umbigo, através de nostalgia em forma de reboots, sequências e remakes, um novo filme, desta vez dirigido apenas por Lana Wachowski, nos leve de volta a esse universo como um código de computador reconfigurado: novo, mas familiar.


Além da volta de Keanu Reeves e Carrie Annie-Moss (ambos muito à vontade em seus papéis), a reverência ao original já é palpável na recriação da sua antológica cena inicial. A partir daí, todo o primeiro ato é construído como um soft remake, em que há um excesso de referências, a maioria escancarada. No entanto, a diretora escapa da armadilha da repetição estéril ao fotografar essa nova Matrix com uma paleta de cores fortes e solares que contrastam com o tom esverdeado do primeiro longa e, principalmente, ao construir um metacomentário interessantíssimo, já que a narrativa do despertar de Neo do filme de 99 é um jogo dentro da realidade (fabricada) deste filme.



Esta sacada do roteiro permite, ao retomar a estrutura de uma narrativa dentro de outra, transformando a maior boneca russa na menor delas, que a própria indústria cinematográfica seja abordada, como na fala de um programador que diz, de forma irônica, “que a Warner faria uma sequência, com ou sem o envolvimento dos criadores originais" ou na montagem sensacional do cotidiano opressivo do protagonista (ao som da psicodélica “White Rabbit” do Jefferson Airplane, uma das muitas menções à obra-prima de Lewis Caroll). Infelizmente, talvez por autoindulgência ou falta de confiança no público, não há sutileza alguma, nem nas falas (uma das personagens chega a explicar as referências de seu codinome), nem na misancene (o primeiro filme é, literalmente, projetado em uma parede, enquanto os personagens conversam). Não fica mais meta que isso.



Já, a partir do momento em que o mundo real interfere no simulacro, o filme sofre de um bocado de exposição e as cenas de ação não têm a inventividade nem a exuberância de outrora por causa da escolha de usar mais planos fechados e cortes mais rápidos (embora o uso do bullet-time em determinada sequência seja bem inovador). A falta de agência de Trinity também incomoda, já que ela só participa efetivamente da ação após ser resgatada no terceiro ato. Além disso, apesar de ter em Jessica Henwick uma boa adição ao elenco, Yahya Abdul-Mateen e Jonathan Groff não convencem completamente por que os atores (Lawrence Fishburn e Hugo Weaving) que deram vida a seus personagens na trilogia original são muito icônicos para evitar a comparação. Teria sido mais honesto criar personagens novos.



Mesmo com alguns percalços e a maior duração da franquia, essa sequência é sempre divertida, ao mesmo tempo em que aborda temas interessantes, como a relevância da obra de arte, se ela deve ser vista como tragédia ou farsa (“Mantivemos alguns garotos entretidos por alguns anos”, diz Neo), a construção de uma sociedade baseada na tolerância com o diferente, o livre-arbítrio como uma ilusão e, é claro, o perigo de se encarar a realidade (se existe uma) de forma absolutamente binária. No entanto, Lana Wachowski não consegue, ou não quer, sair da sombra do clássico original, que não é igualado, mas cuja revisita é sempre revigorante.