• Lourenço Becco

The Batman | de Matt Reeves



O Batman é provavelmente o herói mais popular, e perene, da cultura pop baseada em quadrinhos. Isso não se dá somente pela sua temática dark ou pelos veículos e gadgets legais que ele possui (embora isso ajude). São dois os fatores que justificam a permanência do Homem-Morcego no imaginário tanto do público quanto dos criadores que o ajudaram a evoluir nesses mais de 80 anos: há o apelo ao inconsciente desejo de retribuição por uma tragédia é claro, mas não se pode subestimar a versatilidade incomparável com que essa história – e personagem – pode ser reinventada. É espantosa a quantidade de versões do vigilante, sem que nenhuma invalide e contradiga a outra, por mais diferentes que elas sejam. De Batman pirata a ninja, tudo é permitido. No entanto, mesmo depois de décadas do surgimento da batmania no cinema, uma faceta essencial do personagem era pouco explorada na telona: a de detetive. Não mais, já que The Batman, do diretor Matt Reeves preenche, com méritos, essa lacuna.



Publicado pela primeira vez na revista Detective Comics, cujas iniciais formam o nome da editora, o Batman tem, desde o seu início, usado não só o medo como sua ferramenta, mas também a dedução e a racionalidade para enfrentar um mundo povoado de loucura, bem representado por seus vilões e, porque não dizê-lo, por ele mesmo em certa medida, ao ter que lidar com o trauma que o aleijou emocionalmente. Para atualizar essa atmosfera de romance policial pulp da qual seus criadores, Bill Finger e Bob Kane, beberam, o diretor Matt Reeves se vale do cinema policial da Nova Hollywood e, principalmente, do chamado True Crime, narrativas contemporâneas sobre serial killers. Logo, se na atmosfera, na investigação e nas cenas de perseguições, há um pouco de Serpico, Chinatown e Operação França, na trama e na ambientação (em especial na fotografia e na montagem), o que temos é uma influência inegável de Se7en e Zodíaco. Ou seja, onde Christopher Nolan usou Fogo Contra Fogo de Michael Mann, Reeves se volta para David Fincher.



No entanto, Reeves não faz aqui somente um pastiche ou paráfrase visual, escapando da armadilha em que Todd Phillips caiu em Coringa. Em colaboração com o diretor de fotografia Greig Fraser (de Duna), ele concebe uma cidade de Gotham peculiar, que tem muito da Nova Iorque de Taxi Driver, em sua imundície e repugnância, mas que não renuncia a certo caráter quase operístico, ressaltado pelo alto contraste entre uma escuridão avassaladora, sirenes policiais e luzes escarlates e alaranjadas, além do uso criativo de uma baixa profundidade de campo e do que está desfocado em cena. As poucas cenas diurnas são dessaturadas, mas o fotógrafo se aproveita muito bem de uma luz quente da alvorada, quando a noite acaba e o herói quase chega a baixar suas defesas emocionais diante do fascínio da Mulher-Gato (mais sobre ela daqui a pouco). Já nas cenas de ação, a fotografia varia entre luzes quase estroboscópicas, sejam de rajadas de tiros ou iluminação de boate, até um verdadeiro inferno em chamas à la Mad Max em uma cena de perseguição. Mesmo assim, a ação é bem espaçada assim como as cenas de lutas são filmadas sem muitos cortes e com a câmera fixa. A violência (e o som cru) dos golpes já têm impacto suficiente.



Esta identidade visual não é inócua, pois está a serviço do estabelecimento da trama de caçada humana. É aqui que a comparação com Se7en mais pesa, quando a dupla formada por Batman e Gordon tenta reproduzir a dinâmica dos protagonistas daquele longa, mas sem o mesmo brilho. No entanto, a dinâmica entre os dois é intrigante e o fato de este Batman finalmente ser um investigador, mas estar longe de ser infalível, adiciona uma nova perspectiva à construção do herói, que ainda não está completamente formado. Além disso, o Charada de Paul Dano – quase um Jigsaw obcecado em deixar pistas em forma de enigmas - é assustador o suficiente para manter o espectador apreensivo em relação a seu próximo passo. As outras figuras vilanescas do filme são menos chamativas, mas muito bem construídas, em especial o Pinguim de Collin Farell, que lembra o Capone de De Niro, e o Falcone de John Turturro, que conta com o carisma de seu intérprete para se destacar em um elenco tão estrelado. Por fim, Zoe Kravitz encarna a mais fiel versão da personagem para o cinema, que não tem vergonha de ser a Mulher-Gato, como a de Anne Hathaway. Está tudo lá: não só a sagacidade e a fisicalidade, mas também sua empatia com os desfavorecidos e sensualidade, que gera uma tensão sexual muito bem-vinda ao gênero, quando ela contracena com Robert Pattinson. Pode parecer um número excessivo de antagonistas, mas o roteiro não perde tempo contando a origem de nenhum deles nem a já vista e revista do protagonista.



Já que o mencionamos, vamos falar do Batman, que, ao contrário de em outros filmes, aqui é o protagonista de fato e direito. O Bruce Wayne de Pattinson é a sombra de um homem, meio grunge em sua misantropia e averso à luz do sol como um vampiro, ele ainda não criou (nem acho que vá criar) a imagem do playboy bufão como máscara. Este não é só o filme em que o ator passa a maior parte da metragem com o uniforme do Batman: mesmo em trajes civis, ele é o Batman. Potencializada pela postura encurvada, a maquiagem negra (reminiscente de O Corvo) e a trilha lúgubre de Michael Giacchino, a mortificação do Homem-Morcego já é perceptível pelo recurso da narração de um diário que nos remete à obra-prima Batman: Ano Um, embora não seja tão utilizada quanto poderia. Tanto em pequenos gestos, como a hesitação antes de pular de um prédio, quanto na sua visão de vingança como meta, a inexperiência deste Batman o afasta da visão infalível (e com preparo) que tem sido a tônica há mais de uma década, tornando-o um personagem mais identificável e complexo. A raiva e o luto individuais são seus reais motivadores, não o ideal de justiça para a sociedade.



O arco do personagem, portanto, passa indiscutivelmente pela reflexão sobre o impacto social que a ação do Batman causa em Gotham City. Retratada como corrupta em todas as suas esferas, da polícia à política, Gotham é uma cidade atormentada pela pobreza, pelo crime e pela desigualdade social assim como nos quadrinhos. Não é à toa, logo, que o próprio Bruce Wayne se questione sobre as consequências de sua ação como vigilante, além de ser apontado como homem privilegiado pela Mulher-Gato e cobrado por sua falta de ação filantrópica pela candidata à prefeita. Ou seja, duas mulheres negras questionam se o herói branco não faria mais pela sociedade promovendo ações sociais do que espancando criminosos. Além disso, o roteiro aborda como a violência do próprio herói pode ser vista como uma solução por pessoas perturbadas e como essa mensagem distorcida pode ser propagada pelas redes sociais a ponto de se tornar uma milícia digital. É claro que, em se tratando de uma franquia bilionária de super-herói, o Batman não vai aposentar o capuz em favor de projetos sociais, mas essa investigação criminal que passa a ser uma autorreflexão já mostra uma mudança do personagem no modo como ele encara seus atos e a cidade que jurou idealisticamente proteger. Mesmo sendo um pouco mais longo do que poderia ser, ao colocar o Batman como agente da narrativa e Gotham como mais que um mero cenário, o filme de Matt Reeves aponta novos caminhos para esse personagem que, paradoxalmente, mantém sempre seu cerne apesar das mais variadas abordagens.