• Lourenço Becco

Casa Gucci | de Ridley Scott



Poder, sexo e morte são os motores de grande parte de filmes inesquecíveis do cinema. Se, aliado a esses temas, houver um elenco estrelado, além do fascínio que uma história real sempre exerce, as chances de um filme memorável são grandes. A narrativa do casamento de Patrizia Reggiani e Maurizio Gucci, herdeiro de um império da moda, que acabou em tragédia, com sua dose de traição, intriga, violência e duplicidade, tem todos os elementos para arrebatar qualquer plateia do mundo. Então, por que Casa Gucci, segundo filme de Ridley Scott neste ano, é tão burocrático e insosso? Falta, na verdade, ao seu diretor não técnica, mas uma visão clara de como contar essa história, falta tensão (e tesão) a uma trama que deveria ter isso de sobra. Certo que o roteiro não ajuda, mas a ausência de voltagem do longa, mesmo com uma Lady Gaga quase onipresente, é incontornável. Talvez seria melhor ter assumido de vez a breguice mal contida do projeto, do que disfarçá-la sob um verniz sonolento de sofisticação.



Escrito por Becky Johnston e Roberto Bentivegna, a partir do livro homônimo de Sara Gay Forden, Casa Gucci conta como Patrizia Regianni (Lady Gaga) conheceu e se casou com Maurizio Gucci (Adam driver) e como, nas décadas seguintes, essa relação descambou em homicídio e no fim do legado de uma das famílias mais reconhecidas do mundo. Ridley Scott filma essa história como se folheasse um catálogo de moda com pouco interesse, sem se encantar por nenhuma peça em particular. A fotografia, por sua vez, não tem brilho, apostando em uma paleta de dia nublado. As cenas parecem que foram feitas somente para marcar um checklist, sem energia ou dinamismo, e há poucos momentos inovadores tanto em movimentos quanto em enquadramentos. Quando o diferente é feito, resulta no ridículo, como o raccord sonoro que liga uma buzina à risada histriônica do personagem de Jared Leto. Até a disposição geográfica e temporal é confusa: Scott usa várias vezes a cena de um carro sendo estacionado na frente da mansão Gucci para estabelecer o local, mas pouco se incomoda em deixar claras as idas e vindas entre Milão e Nova Iorque. Para terminar o conjunto, as escolhas musicais ou são óbvias ou descabidas, como “Faith” em uma cena de casamento e “Baby Can I Hold You”, com participação de Pavarotti, em um julgamento!



Mas o grande chamariz do filme é o seu elenco opulento, que é bem-sucedido em termos. Lady Gaga é a única que se sai quase completamente incólume. Comparada com razão a uma jovem Elizabeth Taylor, ela constrói sua Patrizia como uma mistura de femme fatale e matrona italiana, uma mulher maliciosa e inteligente, que, mesmo sem cultura, aproveita todos os momentos, inclusive as gafes sociais, para seduzir. Uma pena que, na segunda parte da projeção, ela seja sabotada pelo tom de melodrama barato do roteiro. Adam Driver, coitado, faz o que pode com o que lhe é dado. Maurizio, descrito como uma pessoa boa demais para ser um advogado, é tímido e atrapalhado no começo do filme, mas ambicioso e audacioso em seus últimos anos. No entanto, o roteiro não desenvolve o seu arco, dando a impressão de que alguma cena muito importante ficou no chão da sala de edição. Já Al Pacino e Jared Leto abraçam de vez a caricatura, com o primeiro apelando pra figura do bufão italiano e o segundo construindo o personagem mais irritante e risível da sua carreira, e olha que ele fez o Coringa de Esquadrão Suicida. Fora da família, não há personagens, só estereótipos, como a vidente de Salma Hayek, forte concorrente de Leto ao Framboesa de Ouro. Para coroar tudo isso, o sotaque forçado lembra demais uma novela mezzo italiana mezzo mexicana da Rede Globo dos anos 90 pra ser levado a sério.



Sofrendo de uma clara falta de intenção ou projeto, Casa Gucci oscila entre filme de real crime e de máfia, mas não consegue nem ser uma crônica de moda do período que retrata, já que não se aprofunda nem em seu aspecto criativo nem empresarial, o que talvez fosse interessante, já que o crime em si não tem o destaque que a campanha de marketing quis vender. Talvez tendo a intuição (ou a certeza) do tom cafona e melodramático do projeto, Lady Gaga se destaca ao imprimir energia e certo vigor a um filme quase todo desprovido deles. No entanto, nem a protagonista, nem o valor de produção ou o renome de seu diretor são o suficiente para dar alguma fagulha ou perspectiva a esse filme que, para além do macarrônico, não tem tempero algum.