• Luciana Sousa

E Então Nós Dançamos | de Levan Akin


De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.

(Fernando Sabino – "O Escolhido", in O Encontro Marcado. Editora Record. 79ª edição. 2005.)

Corpo. Paixão. Tabu. Como explorar tais aspectos numa cultura fortemente marcada por valores tradicionais ainda que inserida num contexto de mercado, da velha e nova globalização? Algumas escolhas podem parecer óbvias, soar repetitivas por lembrar A ou B, Call Me By Your Name, de Luca Gauadagnino [2017], por exemplo, mas se trata, sobretudo, de uma abordagem corajosa esta do candidato da Suécia para Melhor Filme Estrangeiro. Em E Então Nós Dançamos [2019], escrito e dirigido pelo sueco de ascendência georgiana Levan Akin, o corpo está em evidência e com ele a dança e a música. Há momentos em que a câmera desliza como se dançasse. Em outros, o público é convidado a recostar a cabeça e ouvir um canto longínquo, resquício de sua natureza tribal, animal. Entremeando canto e dança, uma história de amor.

O enredo, aparentemente simples e mesmo convencional, esbarra com pelo menos 2.500 anos de tradição. A Geórgia foi a segunda nação a adotar oficialmente o cristianismo [séc. IV a.C.], concentrando 83,9% da população, majoritariamente na Igreja Ortodoxa Georgiana. O restante divide-se entre muçulmanos, cristãos católicos e ortodoxos orientais. A língua oficial é o georgiano, embora a língua russa exerça grande importância, especialmente na capital do país, Tbilisi. A relação tensa com a Rússia é sutilmente apontada no filme, mas historicamente conta com muitas reviravoltas, que incluem um protetorado [1783] e posterior anexação do território [1801 a 1991]. A independência da então União Soviética [9/4/1991] foi seguida de conflitos étnicos e civis com lutas separatistas ainda insolúveis. Uma delas data de 2008. Mas não só os russos desejaram este país caucasiano localizado na área limítrofe entre Europa e Ásia denominada Eurásia, que divide suas fronteiras com o Mar Negro a oeste, a Federação Russa ao norte, o Azerbaijão a leste e sul e Armênia e Turquia ao sul. [1]

Muitas dessas lutas serviram de tema para o cancioneiro e, por extensão, para danças que se tornaram um símbolo de identidade nacional. Muitas remontam aos primórdios, são circulares, vinculadas à fertilidade, à colheita, a divindades femininas, uma delas, Samaia, depois associada à rainha Tamar, a primeira mulher georgiana a tornar-se rainha. São muitas e variadas danças, estimuladas desde a infância, mas uma em particular é abordada pelo filme. Trata-se de Kartuli, uma dança popular e romântica, a mais popular na Geórgia. [2]


A destreza, a força, especialmente masculina, em contraste com a delicadeza feminina, entre outras habilidades, como acrobacias e rapidez nos movimentos, muitos dos quais executados na ponta dos pés e que lembram demais o frevo pernambucano, ganharam reconhecimento além-fronteiras, o que levou dois bailarinos, Iliko Sukhishivili e Nino Ramishvili, a criarem o Balé Nacional da Geórgia Sukhishvili, mencionado no filme. Um dos pontos de tensão, aliás, trata da audição para integrar tal companhia, pautada pelo vigor, disciplina e masculinidade ilibada. A substituição de um dos bailarinos envolve um escândalo com homossexualidade, repudiada no país mesmo na dança, afinal “não é lambada”.

Em paralelo ao rigor e disciplina próprios da dança, os contrastes de um país com novos e velhos costumes, além de muitas precariedades: endividamento das famílias e consequente pauperização, moradias e condições de trabalho insalubres, criminalidade juvenil. A honra, incluindo a virgindade feminina, e o ritual do casamento dentro dos preceitos cristãos ortodoxos devem ser preservados, ao passo que a homossexualidade constitui abominação, devendo ser banida, repudiada. Magreb (Levan Gelbakhiani) e Irakli (Bachi Valishvili) quebrarão essa regra, mas só um cairá. Rivalidade e atração servirão de mote, sem, contudo, fixarem a atenção sobre eles. São as diferentes relações que se sobrassaem, especialmente entre gerações, nem sempre conflituosas, mas, mesmo assim, tensas.

Destaque para as cenas de dança, possível remissão a Carlos Saura, com tomadas inteligentes e precisas. Também merecem destaque as atuações, num elenco que inclui não atores, pelo menos não profissionais, além da coragem de tratar de um tema ainda tabu num país de economia aberta, mas de mente – pelo menos por parte da população – ainda fechada. Talvez faça lembrar certa república de um país afastado do Leste Europeu, aliás, outrora colônia e monarquia escravocrata, até converter-se em republiqueta. Em comum, práticas fascistas, homofobia, misoginia, machismo exacerbado e uma pobreza galopante.


Não sendo possível celebrar o amor na sua forma plena, só podendo sorvê-lo, fruí-lo às escondidas, que pelo menos se dance, e dance muito. Assim defendia Pina Bausch. A queda virá, a dor, a fratura. Ainda assim, será possível dançar: contra tudo e por si mesmo.


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[1] Desde o século I a.C. ao longo do século XVIII, grande parte do território da Geórgia foi disputado por persas, romanos, bizantinos, árabes, mongóis e turcos. Seu auge como um reino independente é nos séculos XI e XII, durante os reinados de David o Construtor e da Rainha Tamar, que figuram entre os mais célebres governantes georgianos.

(Disponível em: https://www.infoescola.com/europa/georgia/ Acesso em: 29 dez. 2019) [2] Nesta dança o homem não deve tocar na mulher, nem mesmo a sua roupa deve tocar nela. O homem mantém os seus braços abertos e estendidos para chamar a mulher, enquanto a mulher mantém o olhar baixo e desliza como um cisne num longo vestido branco. (...) Uma vez que o homem e a mulher não se devem tocar durante a dança, é preciso muita prática. É uma das danças mais difíceis entre as danças tradicionais georgianas.

(Disponível em: https://erasmusu.com/pt/erasmus-tbilisi/experiencias-erasmus/espectacular-danca-tradicional-georgiana-525806 Acesso em: 29 dez. 2019)