• Lourenço Becco

Coringa | de Todd Phillips


"Ouvi uma piada uma vez:

Um homem vai ao médico, diz que está deprimido.

Diz que a vida parece dura e cruel.

Conta que se sente só num mundo ameaçador.

O médico diz: "O tratamento é simples.

O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo.

Isso deve animá-lo."

O homem se desfaz em lágrimas.

E diz: "Mas, doutor... Eu sou o Pagliacci."

Boa piada.

Todo mundo ri.

Rufam os tambores.

Desce o pano."

Em Watchmen, Alan Moore, o roteirista responsável pela mais célebre entre todas as histórias de origem do Coringa, conta, pela boca de outro lunático, a tragicômica anedota de um homem que revela ao seu médico ser ele mesmo o palhaço cujo espetáculo acabara de lhe ser sugerido como cura para sua depressão. O nome do palhaço foi inspirado pela seguinte fala da ópera Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo: "Representar?! Enquanto eu estou tão delirante que não sei o que estou fazendo! (Ele se olha no espelho de sua penteadeira) Você pensa que é um homem? Você não é nada além de um palhaço!". Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) está nesta mesma posição, forçando com os dedos um sorriso grotesco que não consegue esconder as lágrimas que sujam sua pintura, na cena inicial de Coringa, longa idealizado e dirigido por Todd Phillips. O objetivo do diretor era se afastar de qualquer universo compartilhado, contando uma história de origem que muito bem poderia ser uma graphic novel da Vertigo, saudoso selo adulto da DC Comics. No entanto, o projeto parece querer abarcar mais do que isso, tratando de temas como doença mental, revoltas populares, concentração de renda ao mesmo tempo em que tenta ser um estudo de personagem, conseguindo em parte o que se propõe, em um filme que gera incômodo e se alicerça completamente na fascinante composição de Joaquin Phoenix.


Phoenix está em todas as cenas e cria um personagem excêntrico a partir de escolhas que contribuem para a sua caracterização e o arco destrutivo que ele percorre. Extremamente magro e torto (mais do que em O Mestre [2012] de Paul Thomas Anderson), Arthur, com sua voz mansa e calculada, procura a aceitação das pessoas enquanto luta por parecer alguém sociável embora sua mandíbula tenha resquícios de maquiagem branca como um vislumbre de sua natureza obscura. Suas tentativas são frustradas sempre que ele explode em uma gargalhada patológica que luta por sair de sua glote fechada. A perturbadora escolha de um riso que tem mais de dor do que divertimento torna patente que "É difícil ser feliz o tempo todo". Outras vezes, é um riso agudo e programado na tentativa de se integrar. Conforme ele descende na loucura (o signo da escada não está ali à toa), sua postura fica mais ereta; sua voz, mais confiante e sua atitude, mais ameaçadora e sarcástica. Fumando o tempo todo e exibindo uma variedade de tons em seu olhar, se o público chega a ter empatia pelo protagonista, é muito mais mérito da performance de Phoenix do que da insistência irritante do roteiro em causar pena por seus infortúnios. É verdade que faltam à composição o carisma e a sagacidade magnética das outras encarnações (em especial a de Heath Ledger), mas também é verdade que, apesar do título, o que vemos na tela ainda não é o Coringa. De qualquer forma, se afastando ou não do material-fonte, o desempenho de Joaquin Phoenix é a força-motriz da narrativa e vai merecidamente garantir a sua quarta indicação ao Oscar.



A influência mais clara, por sua vez, para construir não só essa sociedade que oprime Arthur Fleck, mas também o visual, o roteiro e a misancene do filme é claramente os filmes da Nova Hollywood em geral e a obra de Martin Scorsese em particular. Phillips já havia mostrado seu entusiasmo por Scorsese em seu primeiro drama, Cães de Guerra [2016], que se assemelhava a O Lobo de Wall Street [2013], mas, em Coringa, ele leva isso a outro patamar. A história de um comediante fracassado e solitário em uma cidade à beira do estado de sítio pode ser descrita como um amálgama de Taxi Driver [1976] e O Rei da Comédia [1982]. Para além da presença de Robert De Niro como uma versão invertida de Rupert Pumpkin, há mais exemplos do que espaço para citá-los: as cenas de Arthur só em casa escrevendo em seu diário e apontando a arma para a TV, a recriação do centro da cidade com sua imundície e cinemas pornô, toda a trama do comediante obcecado pelo host de um programa de TV e até o famoso gesto de Travis Bickle com a mão em forma de arma apontada para a cabeça. Do início, com o logo dos anos 70 da Warner, até o fim, com os créditos finais como letreiros, essa opção do diretor está evidente. Claro que há elementos da Era de Ouro de Hollywood, como a presença de Fred Astaire e Charlie Chaplin, mas são mais pontuais e periféricos. Indo além da homenagem, Todd Phillips acaba por dificultar a percepção uma personalidade própria, quase soando como um pastiche.



Não há como negar, no entanto, que Phillips e sua equipe construíram um filme eficiente em mais de um aspecto. A fotografia de Lawrence Sher oscila entre opressores tons de verde, azul e amarelo esfumados, além de optar por planos que se aproximam ou distanciam lentamente do protagonista centralizado e planos de nuca que o seguem, embora abuse dos contra-plongées. Já a montagem de Jeff Groth é ágil sem ser apressada, aumentado seu ritmo de acordo com o estado mental do personagem, fluindo bem entre sequências de delírio e flashbacks. Há o uso também de rimas visuais que sugerem a evolução do protagonista, como o personagem com a cabeça encostada no vidro de um veículo e subindo e descendo uma escada em momentos diferentes. O design de produção de Mark Friedberg se encarrega de replicar o desconforto da narrativa nas ruas empilhadas de sacos de lixo e em ambientes claustrofóbicos e atulhados, como o apartamento de Fleck e o escritório de sua assistente social. Todo esse sentimento opressor é potencializado pelas cordas dissonantes e secas do violoncelo da islandesa Hildur Guðnadóttir, que está em um bom ano, já tendo ganhado o Emmy pela trilha da série Chernobyl [2019] e sendo outra aposta certa para o Oscar. As escolhas musicais, como "Smile", "Send In The Clowns" e "That's Life!" são inspiradas a ponto de estabelecer um diálogo com os temas do filme, em especial a última. Por fim, o figurino de Mark Bridges encontra uma boa alternativa ao terno roxo do Coringa enquanto a equipe de maquiagem assusta ao evocar a pintura facial do palhaço assassino Pogo, cujo nome também batiza o Clube de Comediantes do longa. Ainda nesse aspecto, a aflitiva cena em que o Coringa pinta a face de branco e os cabelos de verde é um exemplo fantástico do trabalho dessa equipe, já que o vermelho que completa o conjunto não é exatamente o que se espera.


Todos essas qualidades, porém, parecem ter sido solapadas pelo tsunami de polêmicas que tem cercado esse filme mesmo antes de sua estreia. O protagonista seria um incel que prega a misoginia? O filme incentiva e/ou glorifica a violência? Humanizar o personagem é o mesmo que justificar seus atos criminosos? Como não existe má publicidade, toda essa controvérsia ajudou a promover tanto o filme quanto aqueles que a alimentaram a fim de ganhar cliques. O diretor teve carta branca do estúdio (coisa rara em filmes de quadrinhos), portanto são as palavras do seu roteiro e como ele as transformou em imagens que devem estar no centro da discussão. Pois bem, desde o princípio, fica claro para o espectador que uma sociedade corrompida pode ser mais danosa do que qualquer tanque de produtos químicos. Arthur se sente oprimido e derrotado pela cidade: "É impressão minha ou tudo está enlouquecendo lá fora?". É difícil manter um sorriso na cara e trazer alegria ao mundo quando se é constantemente menosprezado, ignorado e, mais de uma vez, espancado. Já tendo um histórico de internamento, ele procura não só se livrar da dor e dos pensamentos mórbidos ("Não quero mais me sentir tão mal", "Nunca fui feliz nenhum dia nessa merda de vida"), mas achar uma identidade ("Eu não tinha certeza, durante toda a minha vida, se eu existia, mas agora agora as pessoas estão começando a notar"). O comediante descobre, então, uma rota: a violência. Ela é justificada? Para o personagem, certamente. Para o diretor, só podemos supor com base nas suas escolhas, provavelmente sim pelo modo como ele filma certas cenas (sem spoilers). O que importa é como o espectador se posiciona, ou seja, se ele, eu ou você, torcemos, após ver tantas humilhações, pela desforra: se torcemos para que aquele tiro acerte o alvo em fuga.


O filme aborda temas sociais como a falta de assistência a pacientes de distúrbios mentais, a demagogia política e a má distribuição de renda. O fato é que, embora esses fatores não sejam tão proeminentes, também são tão responsáveis pelo desequilíbrio do personagem quanto as constantes surras. Uma pena, logo, que não haja espaço para tratar disso de forma menos simplista no roteiro, ficando-se no plano da generalização, afinal nem todo rico é canalha, nem todo paciente com patologias psíquicas tem tendências violentas, mesmo se privado de medicação. No terceiro ato do filme, essas questões se intensificam ao ponto de ebulição. Quando finalmente chega o momento de apresentar o Coringa mais próximo da versão que conhecemos, o diretor não se furta em mostrar sua aparição de forma apoteótica, com planos detalhes, uma iluminação quente e música empolgante, culminando com a sequência da dança na escada, que é perturbadoramente exuberante (de novo, Joaquin Phoenix). Os últimos 20 minutos de projeção escalam de maneira vertiginosa. A tensão é muito bem construída, a violência resultante é seca (a audiência se espanta em uníssono) e sua repercussão tem efeitos surpreendentes. Quando o palhaço repete o gesto de abrir o sorriso com os dedos na cena que antecede o epílogo, não há mais o homem lá, só o Coringa. Talvez seja esta a sequência em que o diretor se excedeu na admiração por sua própria criação por que, embora o personagem diga que não liga pra política e que não acredita em nada, há inegavelmente uma ratificação do revanchismo social em uma visão distorcida do Occupy Wall Street. Por outro lado, o Coringa, em todas as versões, só quer ver o circo, ou Gotham, pegar fogo, o que condiz com a sua caracterização. Provavelmente, enfim, são aqueles que, por exemplo, viam o Capitão Nascimento no primeiro Tropa de Elite [2007] como um herói, não como o monstro que ele era, que validarão as ações brutais com a justificativa do "Você tem o que merece".


Embora faça algumas referências ao universo do Homem-Morcego (a última não era necessária, mas é difícil resistir à tentação de fazê-la), é um alívio ver um filme que tem coragem de estampar um The End, abdicar das famigeradas cenas pós-créditos e se fechar em si mesmo. Enquanto comete um ato horrendo, digno de uma tragédia grega, Fleck/Coringa diz: "Eu achava que a minha vida não passava de uma tragédia, mas agora eu percebo que tudo não passa da porra de uma comédia!". Se os gregos consideravam a comédia um gênero menor por tratar da vida de homens comuns, com falhas inimagináveis para os heróis, talvez ele esteja certo. No final das contas, é a ambiguidade da sua vida trágica que o mergulha na fragmentação da própria personalidade e na suplantação do palhaço sobre o homem. O que fica do filme e nos acompanha depois que a cortina desce não é a sua crítica maniqueísta da sociedade ou sua mensagem arriscada, mas a risada inquietante do Coringa de Joaquin Phoenix.


Cotação: ★★★1/5