• Lourenço Becco

Vingadores: Ultimato | de Joe e Anthony Russo


Esse texto pode ser lido com ou sem spoilers. Vou me deter mais na estrutura e aspectos da narrativa, mas, entre colchetes, haverá referências a alguns elementos específicos do enredo. Quem quiser ler, é só passar o cursor ou pressionar e arrastar para selecionar o que está escrito em branco.


Em Os Vingadores (2012), Tony Stark (Robert Downey Jr.), com a empáfia que lhe é característica, diz: "Se nós não conseguirmos proteger a Terra, pode ter a certeza de que nós vamos vingá-la!". O playboy que virou herói não poderia perceber o caráter profético que suas palavras teriam 7 anos após a primeira missão do grupo. Derrotados por Thanos em Vingadores: Guerra Infinita (2018), os heróis mais poderosos da Terra têm que lidar com a culpa, a frustração e a sede de revide provenientes do desaparecimento de metade da população do universo (e de vários amigos e colegas de armas) causado pelo estalar de dedos fatal. Zênite de um projeto ambicioso e inédito na história do cinema, Vingadores: Ultimato celebra e encerra uma trama narrativa que se espalhou por 21 filmes durante mais de 10 anos, proporcionando o maior espetáculo audiovisual de que se tem notícia em um filme de super-heróis, sem deixar de fechar o arco dramático de seus protagonistas de forma plenamente satisfatória. A responsabilidade dos irmãos Russo, diretores dos dois últimos filmes da franquia, era titânica, dada a expectativa de bilhões de pessoas que acompanharam essa história durante tanto tempo. A partir do intricado roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely, os diretores surpreendem o público, frustrando suas teorias com rumos inesperados, e satisfazem seu investimento emocional, adiando a ação grandiosa (que, quando vem, é em escala monumental) em favor do desenvolvimento dos personagens a partir do impacto emocional que o fracasso teve sobre eles.



Ainda na etapa de pré-produção, este quarto filme do grupo foi chamado de Guerra Infinita - Parte 2. Felizmente, este título foi alterado, por que a sequência, apesar de estar intrinsecamente ligada ao que aconteceu no longa anterior, é muito diferente dele tanto em tom quanto em estrutura. Mesmo sendo o maior blockbuster da década, Ultimato torna a escala mais pessoal quando se inicia com uma cena absolutamente doméstica e prosaica, sem necessidade de exposição justifica a ausência de um personagem [o Gavião Arqueiro de Jeremy Renner] ao mesmo tempo em que mostra como os eventos de Guerra Infinita o afetaram. Os Vingadores sobreviventes fazem jus ao nome do grupo e planejam o acerto de contas com Thanos. Quando a vingança se mostra infrutífera, como geralmente acontece [com a abrupta morte do vilão pelas mãos de Thor], o prólogo é encerrado com uma decisão surpreendente do roteiro [o salto de 5 anos no tempo], que obriga os heróis, completamente humanos e frágeis, a lidar, cada um a sua maneira, com a dor das mais diferentes formas. Podem-se apontar algumas facilidades narrativas para que a história tome esse rumo [um rato aqui, uma Capitã Marvel acolá], mas o fato de que os roteiristas conseguiram surpreender e reverter as expectativas de fãs, que passaram o último ano escrutinando e especulando sobre como seria o filme, é louvável!



Ao contrário do que se esperaria de um blockbuster desta magnitude, o primeiro ato de Vingadores: Ultimato é bastante sombrio, investindo em algo pouco visto nos outros filmes de heróis, em especial nos da Marvel: reais consequências para os atos dos heróis. Há uma ambiência fúnebre, com uma fotografia pouco saturada e fechada em closes nos rostos angustiados dos personagens: um sentimento generalizado de perda, enfim, que remonta imediatamente ao Pós 11 de Setembro; não é à toa, portanto, que passem a existir grupos de apoio aos sobreviventes que tentam lidar com a ausência dos assim chamados Dizimados. Aliás, corajosamente o roteiro aborda, pelas reações de seus personagens, as diversas fases do luto emocional. Há a raiva pela injustiça e aleatoriedade das mortes [a transformação mortal do Gavião Arqueiro em Ronin], uma depressão misturada com negação [o retiro autoimposto do agora volumoso Thor regado a álcool e jogos on-line] ou com negociação [a insistência de Natasha em manter o grupo ativo e a de Steve em auxiliar o homem comum] e, finalmente, a aceitação [a evolução do Hulk para uma versão híbrida das anteriores e, principalmente, a construção de uma família pelo antes solitário Tony Stark]. A narrativa de ação é adiada para uma linha de desenvolvimento de personagens superpoderosos, mas humanizados por seus sinais de estresse pós-traumático. Em uma escala universal, diga-se. O comprometimento dos atores é essencial para a identificação do espectador e, embora todos estejam muito bem, se destacam aqui as interpretações de Scarlett Johansson, mostrando que a Viúva Negra deixou de ser uma mera femme fatale unidimensional, e Robert Downey Jr., defendendo com intensidade o papel mais importante de sua carreira.



Os irmãos Russo mostram sua habilidade em lidar com diversos tons no segundo ato do filme, em que, após a inevitável reunião do grupo, a narrativa pega a emprestado a estrutura de um filme de assalto e homenageia um clássico dos anos 80 [De Volta Para o Futuro 2 (1989), mesmo subvertendo uma de suas premissas]. Estabelecem-se, então, várias linhas narrativas paralelas que, além de avançar a trama, têm a função de fechar pontos em aberto da jornada emocional desses personagens que vem sendo construída ao longo de uma década. No entanto, o maior propósito deste segmento é homenagear a própria história do Marvel Studios em uma construção metalinguística tão divertida quanto engenhosa [a viagem no tempo], que permite tanto aos personagens quanto aos espectadores rememorarem vários dos momentos mais significativos deste 10 anos. Muito se tem discutido a respeito de como o enredo pôde se ramificar em tantas subtramas, mas, como em qualquer universo de fantasia, a partir do momento em que se mantém a verossimilhança (não o realismo) e se determinam algumas regras básicas, a trama pode e deve se desenvolver sem maiores percalços por que, acima de tudo, é a evolução dos personagens o que importa mais, não minúcias e pressuposições que só têm como objetivo estragar a diversão e perpetuar debates do mundo nerd em vídeos de finais explicados no YouTube. A exemplo de Spielberg e Zemeckis, as peripécias dos heróis, além de dissipar o tom soturno em que o filme vinha mergulhando, divertem imensamente o público por serem leves, mas dramaticamente importantes por que as situações advém da personalidade e atitudes dos personagens. Nesse sentido, Tony Stark, Steve Rogers e Natasha Romanoff se sobressaem, e é admirável observar como os roteiristas se preocuparam em construir o desenlace do arco desses personagens tão estimados pelo público não só com referências, mas com uma coesão narrativa que respeita e amplia o que foi feito durante tantos filmes por outros diretores e roteiristas diferentes, como uma boa história em quadrinhos, que respeita o cânone e a cronologia anteriormente estabelecidos.



A ameaça de Thanos, protagonista inquestionável do filme anterior, mesmo aparecendo menos neste filme para ceder o centro do palco novamente aos Vingadores (especialmente os 6 originais), ainda é sentida não só pelos efeitos de suas ações ainda reverberarem, mas por que, desta vez, o conhecemos melhor e sabemos do que ele é capaz. O talhe ameaçador e irônico do Titã interpretado por Brolin evoca terror, fúria e admiração no espectador, que anseia pelo confronto definitivo com ele. Não é o exército, nem a armada o que aterroriza, mas o sorriso e a certeza que ele tem da própria inevitabilidade. Nada, no entanto, do que foi imaginado e almejado preparou ninguém para o espetáculo épico (na acepção primeira da palavra) e o influxo de emoções que é o clímax de Vingadores: Ultimato. Tendo como início um plano abertíssimo que, como uma pintura barroca, mostra o herói solitário contra a horda inimiga [Capitão América em face do exército de Thanos], o embate que se segue é a transposição audiovisual de uma página dupla de quadrinhos, daquelas com dezenas de personagens se enfrentando em uma hiperbólica explosão de cores! É impossível não vibrar quando nós mesmos parecemos voltar ao tempo da infância, maravilhados, torcendo pelos heróis que conhecemos e amamos. Ciente da desolação causada pela derrota final há um ano, a Marvel nos oferece aqui um dos momentos mais catárticos da história do cinema [do ressurgimento dos heróis desaparecidos, ao Capitão América usando o Mjolnir, até o tão adiado "Avantes, Vingadores!" embalado pela trilha de Alan Silvestri]! A medida de um herói, porém, não está na sua força ou em seus poderes, mas no quanto ele está disposto a sacrificar e até onde pode ir para assegurar o bem maior. Mesmo em face do cenário grandiloquente, os Russo não perdem isso de vista e, na ressignificação de uma momento ["Eu sou o Homem de Ferro!], encerra uma jornada como nenhuma outra.

Em Vingadores Ultimato, Tony Stark, com mais maturidade do que supunha ter, diz: "Parte da jornada é o fim". É esta sensação de fechamento - de uma saga, de uma vida, de uma época - o que mais impacta emocionalmente neste filme. Metaforicamente, é uma história sobre como as experiências do passado não podem ser negadas, pois as escolhas que fazemos nos tornam quem somos e, portanto, não podem ser desfeitas. Não seria uma saída honesta, já que o tempo é limitado e, por isso mesmo, é crucial que o aproveitemos ao lado de quem nos é importante; uma família como os Vingadores se tornaram, mesmo que não seja de sangue. Embora a dor e o luto sejam, estes sim, inevitáveis, não há demérito na velhice e na morte, desde que, como disse Tolkien, usemos bem o tempo que nos é dado. Não há dúvida de que esse universo, tão lucrativo e poderoso na indústria cinematográfica, vai continuar, mas a história de alguns personagens com quem convivemos por uma década se encerra aqui. É difícil não se maravilhar que uma travessia de tantos filmes tenha como término uma singela cena ao som de uma canção que assegura que, mesmo fazendo muito, muito tempo de uma ausência, não é tarde demais para recomeçar [uma dança há muito adiada].


Cotação: ★★★★★ PS: Não há cena pós-créditos, somente o som de ferro sendo forjado se pode ouvir ao fim da projeção.