• Lourenço Becco

SHAZAM! | de David F. Sandberg


"As paixões humanas são misteriosas, e as das crianças não o são menos que as dos adultos", já dizia o narrador de A História Sem Fim, clássico da literatura infanto-juvenil escrito pelo alemão Michael Ende e adaptado para o cinema em 1984 pelo também alemão Wolfgang Petersen, por sua vez um clássico da Sessão da Tarde. Nas duas obras, a paixão misteriosa do protagonista, Bastian Baltasar Bux, são os livros e seu maior desejo é poder abandonar a identidade frágil e acanhada do menino que sofre bullying para se tornar o corajoso herói, Atreyu, singrando os céus em seu Dragão da Sorte. Pois bem, para qualquer criança que tem como paixão as histórias em quadrinhos, tão em voga no cinema contemporâneo, o maior desejo é poder virar um herói e voar pelos céus em um fantasia colorida. O maior mérito de SHAZAM!, novo longa baseado no Universo DC, dirigido por David F. Sandberg, é justamente pegar esse anseio infantil e transformá-lo no motor de uma narrativa divertida, que não se furta de abordar temas como bullying e conflitos familiares, mas sempre com aquele clima leve dos filmes que assistíamos à tarde, fascinados, em frente à televisão.



Embora hoje não seja nem de longe tão famoso quanto seu amigo Superman, o herói de SHAZAM! já ameaçou o reinado supremo do Homem de Aço, e esse foi justamente o motivo de sua derrocada e quase esquecimento. Criado em 1939 por Bill Parker e C.C. Beck para a Fawcett Comics (que é homenageada no filme como o nome da escola), o Mortal Mais Poderoso da Terra se chamava Capitão Marvel e, possivelmente por seu alter-ego infantil, ultrapassou a DC Comics em vendas e o Superman em popularidade. Claro que a toda-poderosa editora não ia deixar barato e processou a Fawcett por plágio do Superman, em um processo que resultou na falência da Fawcett e na aquisição do personagem pela própria DC, que não pôde usar o nome "Captain Marvel" na capa das revistas por que a Marvel Comics já havia surgido. Shazam, como ele é chamado oficialmente agora, apesar de várias tentativas, nunca conseguiu recobrar o sucesso de outrora nem emplacar um título, até a reformulação pelas mãos de Geoff Johns e Gary Frank em 2011, que serviu de base para Henry Gayden e Darren Lemke escreverem o roteiro do filme, que também é uma correção de rumos, ao negar completamente o tom sombrio da Era Snyder.



Apesar da mudança de nome, o personagem continua sendo Billy Batson, agraciado com a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, o vigor de Atlas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio sempre que diz o nome do Mago (Djimon Hounsou). O que mudou foi a ênfase em dois elementos que fazem este filme funcionar tão bem com o público: o aspecto de família com os irmãos e pais adotivos de Billy e um humor ágil e leve, devedor das comédias e aventuras dos anos 80 que ele mesmo faz questão de referenciar. Tudo isso é misturado com um pequeno toque de horror, não o suficiente para afastar, mas fascinar as crianças que vão ao cinema, mais ou menos como Spielberg costumava fazer em suas produções, como Goonies [1985] e a série Indiana Jones (quem não lembra do coração sendo arrancado em Indiana Jones e o Templo da Perdição [1984]?). Este elemento é característica do diretor David S. Sandberg, que vem do terror (assim como seu colega, James Wan, de Aquaman [2018]). Depois do sombrio prólogo, a habilidade para o macabro do diretor é vista na cena em que uma cientista é carbonizada até as cinzas (Lotta Losten, esposa de Sandberg) e em uma outra que se passa em uma sala de reunião, com direito a pessoas arremessadas pela janela e cabeças devoradas.


Mas, como fica bem claro quando um garoto derruba os bonecos de Batman e Superman que com que antes estavam brincando de luta (uma clara referência ao filme-desastre Batman v Superman [2016], de Zack Snyder), a era do sombrio e violento acabou na DC, ou pelo menos não precisa mais ser a norma. SHAZAM! é o que se costuma, em mais de um sentido, chamar de filme-família. A partir do momento em que Billy chega na casa de sua família adotiva, tudo corrobora para isso: o clima de Natal, a direção de arte que evidencia os desenhos de crianças nas paredes, os brinquedos espalhados e a dinâmica entre os irmãos e seus pais (Martha Milans e Cooper Andrews), que é estabelecida rapidamente na apresentação dos personagens, com destaque para a encantadora Darla (Faithe Herman). A sensação de que aquele é um lar verdadeiro, sem a necessidade de nenhuma cena ou diálogo expositivos, é evidente, tornando-se o centro emocional da trama. Mas, o alter-ego do fã de quadrinhos é, sem dúvida, o personagem de Jack Dylan Grazer (de IT: A Coisa [2017]), cujo quarto, cheio de memorabílias de super-heróis e recortes de jornal dos feitos do Superman, e discurso empolgado sobre as características dos heróis refletem o entusiasmo do leitor-público diante deste novo Universo DC, mais heroico e solar!


Esta nova direção para os filmes da DC está expressa na própria escolha de Shazam: como Billy é uma criança (vá lá, adolescente), ele não tem aquela angústia de ser um herói nem o peso da responsabilidade do manto. Não há sinal aqui daquele herói atormentado, que não tem nenhuma alegria no que faz, como em Homem de Aço [2013]. O garoto só quer se divertir, e quem, no lugar dele, não faria o mesmo aos 14 anos? As cenas entre Shazam, interpretado com carisma e extravagância por Zachary Levi, e Freddie são as melhores do filme. Em um espalhafatoso uniforme vermelho e amarelo, Shazam é o Id de Billy e Freddie com superpoderes ("I'm your fake ID, Freddie!", diz ele), indo atrás de tudo que é proibido a garotos de sua idade. A sequência em que Freddie filma (e posta no YouTube) Billy testando seus recém-adquiridos poderes ao som de Don't Stop Me Now, do Queen, já nasceu clássica. A química entre Levi e Grazer eleva todas as cenas em que contracenam. Essa pegada mais descontraída é reforçada pelas muitas referências a vídeo-games e filmes, em especial a Rocky [1976], já que se passa na Filadélfia, e a Quero Ser Grande [1988], uma clara inspiração dos realizadores ao abordar o tema da criança em corpo de adulto (repare como, após a primeira transformação, Billy bate a cabeça na porta do trem e deixa cair objetos, desacostumado com sua nova estatura e "mãos de adulto").

O antagonista de Shazam em sua jornada não é uma criança, mas alguém que carrega um trauma infantil, o Dr. Silvana (Mark Srong), que nunca aceitou a rejeição do Mago nem a de seu pai (John Glover, que já tinha sido pai de outro vilão careca da DC, o Lex Luthor, de Smallville). Infelizmente, mesmo tendo um background interessante, Mark Strong, que já interpretou os vilões de Lanterna Verde [2011] e Kick-Ass - Quebrando Tudo [2010], não consegue fazer seu Silvana ir além do papel de antagonista genérico, apesar de o roteiro tentar lhe dar alguma vivacidade, como nas duas cenas importantes em que ele perde os óculos ou no fato de que ele, assim como o herói, tem um objeto esférico como lembrança do dia que marcou traumaticamente sua infância (uma bola 8 e uma bússola respectivamente). Há uma cena muito divertida, inclusive, que brinca com o maior clichê da vilania: o discurso maligno. Talvez por esse clima mais leve do filme, os produtores tenham decidido deixar um vilão com uma personalidade mais intensa, como o Adão Negro (a ser interpretado por Dwayne Jonhson), para uma provável sequência. Os Sete Pecados Capitais, por sua vez, lembram os gárgulas e monstros de filmes como Os Caça-Fantasmas [1984] e os filmes clássicos de Simbad na aparência e no modo como se movem, mas, além de assustarem as crianças, não causam uma impressão maior. O terceiro ato, além disso, é um tanto convoluto, tentando se equilibrar entre três locações e muitos personagens envolvidos.



Além de construir uma aventura divertida e estabelecer a personalidade e a mitologia de um novo personagem, SHAZAM! ainda acha algum terreno para tocar em temas mais prementes, como o abandono parental e o bullying, sendo que este último não é novidade em filmes de super-heróis (vide o Homem-Aranha [2002], de Sam Raimi, também uma influência inegável). Mesmo que sejam superficiais, esses temas estão no roteiro para amadurecer (mas não muito) o protagonista. Shazam só percebe que está abusando de seus poderes quando Freddie diz expressamente que ele pode se tornar o que mais odeia: um valentão. Além disso, em uma cena muito corajosa e dramática para um filme tão jocoso, Billy Batson, o garoto, encara seu passado, faz uma escolha pelo futuro e, em um salto de fé, abraça sua identidade heroica, não para se divertir, mas para proteger sua família. Uma resolução corajosa que não só um adulto, mas um herói de verdade tomaria.

Cotação: ★★★★


PS: Arte da segunda imagem por Alex Ross. PS2: Não há necessidade de ver em 3D, só deixa a imagem escura e opaca. PS3: Há duas cenas pós-créditos como de costume. PS4: O filme conta com as participações de D. J. Catrona e Adam Brody, que interpretariam, respectivamente, Superman e Flash no filme cancelado da Liga da Justiça de George Miller.