• Lourenço Becco

Han Solo: Uma História Star Wars | de Ron Howard


Muitas das críticas negativas sobre Han Solo - Uma História Star Wars (2018), dirigido pelo veterano Ron Howard, afirmam que este novo filme da franquia é desnecessário. Mas, afinal, qual filme é realmente necessário? Até eles terem sido efetivamente feitos, nenhum realmente. Uma das principais funções da arte e, por extensão, do cinema é o deleite, a fruição, ou seja, a diversão mesmo. Em tempos de franquias milionárias (e Star Wars foi a primeira delas) e cenas pós-créditos conectando tramas intrincadas, uma aventura simples, sem os dramas palacianos da família Skywalker, duelos de sabre de luz ou filosofias da Força, pode parecer "desnecessária" ou distante dos rumos que a saga vem tomando. No entanto, as peripécias de um aventureiro espacial retomam a primeira inspiração e cerne de Star Wars: as séries de filmes de Flash Gordon, a que o menino George Lucas assistia talvez já imaginando as façanhas de seus próprios personagens. Precisamente 35 anos após a estreia de O Retorno de Jedi (1983), Han Solo traz Star Wars de volta para as matinês!


Outro debate que cercou a produção foi a demissão dos diretores Phil Lord e Christopher Miller por "diferenças criativas" e a substituição por Ron Howard, que, segundo consta, refilmou 80% do material. As discussões giram em torno de como seria o filme dos jovens diretores, o que foi cortado ou modificado e a abordagem supostamente mais tradicional de Howard. No entanto, não é certo julgar um filme pelo que ele poderia ter sido, mas pelo que ele é efetivamente. O resto não passa de infrutífera especulação. Howard, aliás, abre mão de vários elementos canônicos de Star Wars, como a fanfarra e o letreiros amarelos iniciais. No lugar deles, aparece um breve texto que, fazendo uma sutil referência a Caminhos Perigosos (1973) de Martin Scorsese, introduz um submundo de privação e violência, habitado por todo tipo de sobrevivente, em especial ladrões, falsários e, por que não, gângsteres. O título do filme não aparece fora de cena, no espaço sideral, mas sobre o céu poluído de Corellia, onde o jovem Han Solo faz ligação direta em um veículo roubado, (re)apresentando o personagem de forma concisa. A sensação de uma história em que o Império é uma ameaça constante, mas que é vista de baixo pra cima, do ponto de vista da plebe, é sumarizada em um belo plano que mostra um Destróier Imperial visto do nível da rua enquanto um rato (ou algo similar) caminha pelos fios do subúrbio pobre. Aliás, é a primeira vez em Star Wars que se vê uma comunidade que se assemelha às nossas favelas.



Nesta primeira parte, a fotografia de Bradford Young (indicado ao Oscar por A Chegada, 2016) é mais soturna, tendendo para o cinza, o amarelo e, principalmente, o azulado, o que ressalta essa atmosfera mais opressiva. Reavendo a temática social do primeiro filme (Uma Nova Esperança, 1977), que George Lucas afirma ser sobre a Guerra do Vietnã e governos imperialistas, Han Solo apresenta crianças aliciadas pelo crime, povos em trabalho escravo e uma rebelião (de dróides!) por direitos iguais. Desta forma, o tom mais realista (até onde se pode ser realista em um filme de Star Wars) é determinado pelo uso de locações reais em detrimento das famigeradas telas verdes. Acompanhando o roteiro de Jon e Lawrence Kasdan (de O Império Contra-Ataca, 1980), que não se limita à aventura espacial, percorrendo vários subgêneros como o filme de assalto (a trem), filme de guerra e western, o longa é fotografado utilizando enquadramentos que remetem a Spielberg e Leone, como a tonalidade suja de um front muito parecido com os da Segunda Guerra e os planos-detalhe e closes fechados típicos dos faroestes americanos e italianos.


Claro que outra fonte de preocupação e (mais) reclamação dos fãs exaltados foi a escalação do protagonista, já que Harrison Ford não poderia nem estaria disposto (por rejuvenescimento digital) a reprisar um dos mais icônicos papeis não só da sua carreira, mas da história do cinema. Alden Ehrenreich, vindo de uma atuação marcante em Ave, César! (2016) dos irmãos Coen, não é particularmente parecido com Ford, como outros candidatos, mas tomou a decisão certa de não imitar o Han Solo da trilogia original, afinal não é o mesmo personagem. Ao menos, não ainda. No começo da projeção, é muito difícil ver o Solo na interpretação dele. Conforme o filme avança, no entanto, Ehrenreich vai adicionando nuances e trejeitos familiares, além de dilatar aquela empáfia, senso de humor e uma certo charme que conhecemos bem, mas sem perder a insegurança de um iniciante. Quando, finalmente, ele senta na ponte da Millenium Falcon com Chewbacca a seu lado, o reconhecimento é imediato: ali está Han Solo! Como diz a personagem de Emila Clarke, em uma fala metalinguística, precisa aparar algumas arestas, mas está ótimo! Sua dinâmica com o restante do elenco é bem desenvolta, especialmente com Chewie (Joonas Suotamo, muito divertido) e Qi'ra (Emilia Clarke), que surpreende ao ser mais que o interesse romântico, se mostrando um dos personagens mais multifacetados da trama. Completam a equipe o Lando Calrissian do sempre carismático Donald Glover, que tem uma relação inusitada com sua Dróide, L3-37 (Phoebe Waller-Bridge), e Beckett, uma espécie de versão cafajeste de Obi-Wan Kenobi nos caminhos, não da Força, mas do submundo.


Como o mistério sempre foi parte inerente do charme de Han Solo na trilogia, surgiu outro debate entre os fãs se o roteiro "explicaria" demais o personagem, tirando essa incógnita da aura do personagem. Bem, praticamente todas as referências ao passado do contrabandista são retomadas aqui: como ele conheceu Chewie e Lando, além de como ele conseguiu seu nome (!), sua arma, sua nave e, por fim, a feito de terminar o Percurso de Kessel em 12 parsecs (mesmo arredondando pra baixo). Algumas referências não passam de fan-services gratuitos, mas outras são intrínsecas à história e ajudam na caracterização do protagonista. A trama do filme, no entanto, demora um pouco pra engrenar, já que o primeiro ato meio que se inicia duas vezes e alguns personagens são descartados sem maior desenvolvimento, mas, a partir da empolgante sequência do roubo do trem, o filme constrói vertiginosas cenas de ação, como a fuga da mina e o já citado Percurso de Kessel. Em seu clímax, o conflito se torna mais pessoal e é resolvido mais pela astúcia do que pela força, o que é sempre bom, embora o vilão Dryden Vos (Paul Bettany) tenha pouco a oferecer. O filme se beneficia, ainda, da trilha sonora um tanto saudosista de John Powell (que adiciona vocais femininos muito interessantes na faixa "Marauders Arrive") e da vasta quantidade de figurinos desenhados por David Crossman e Glyn Dillon, com destaque para a cena da festa em um iate vertical.



Talvez nem o mundo nem os fãs precisassem mesmo de um filme sobre o passado de Han Solo, talvez o filme fosse mais ousado e sombrio se não estivesse sobre a chancela da Disney ou fosse mais leve se não tivesse trocado a direção do projeto, mas nunca saberemos realmente. O fato é que o Han Solo visto aqui, como ele mesmo diz, não é um dos mocinhos e ainda está aprendendo a ser o cafajeste que todos nós adoramos (falta-lhe ainda aquela ira mal contida sob a superfície debochada), mas é intrigante saber que este filho da classe operária, humilhado e ofendido, mesmo tendo escolhido o caminho do individualismo e do amor-próprio pra sobreviver, ajudou mais de uma vez a rebelião a se erguer. Ainda vai demorar um tempo para que ele faça essa escolha pelo bem-comum espontaneamente. Será preciso o amor de uma princesa para convencê-lo. Até lá, pelo menos, Han Solo já sabe que nunca se deve perguntar as probabilidades nem confiar em ninguém, mas sempre é vital atirar primeiro.