• Lourenço Becco

Vingadores: Guerra Infinita | de Anthony e Joe Russo



Aviso: Este texto não contém spoilers e não discute pontos-chave do roteiro de Vingadores: Guerra Infinita.


Nunca houve um filme como Vingadores: Guerra Infinita (2018). Ele representa o zênite não só do empreendimento colossal de 10 anos e 18 produções do Marvel Studios, como também o ponto mais alto do gênero de filmes de super-heróis, que a própria Marvel ajudou a criar e a consolidar como o mais bem-sucedido do cinema contemporâneo. Desde que bancou a ousada aposta de produzir Homem de Ferro (2008), um herói desconhecido com um intérprete controverso, o estúdio da Marvel, na figura de seu comandante, Kevin Feige, criou uma tapeçaria de aventuras, cujas várias tramas se entrelaçam para formar um painel, aqui sim, épico (este adjetivo tão gasto e mal utilizado na popsfera). O plano era simplesmente genial em sua simplicidade: apresentar os heróis em filmes individuais para, só então, uni-los em um filme de grupo, Os Vingadores (2012), estabelecendo o paradigma que regeria a indústria a partir de então: o universo cinematográfico compartilhado. Na cena pós-créditos deste filme (mais uma tendência solidificada pela Marvel), o público era apresentado a Thanos e, desde então, o Universo Marvel nos cinemas tem se expandido tanto na Terra, quanto em outras galáxias e dimensões, para contar esta história: a saga de Thanos em sua busca por poder.



Manter o público sempre em cheque, ao mesmo tempo em que não se afasta muito de uma fórmula que se mostrou vitoriosa e lucrativa, foi sempre o fiel da balança sobre o qual o Marvel Studios se equilibrou. Nessa perspectiva, o êxito do primeiro filme dos Vingadores não se repetiu (ao menos em termos narrativos) em sua sequência, Vingadores: A Era de Ultron (2015), um ótimo filme de entretenimento, mas que não se arrisca tanto quanto poderia dadas as possibilidades. No campo dos filmes solo, o estúdio também não estava primando pela originalidade quando lançou, em 2013, Homem de Ferro 3 e Thor: O Mundo Sombrio, filmes tão genéricos que até os pôsteres de ambos são intercambiáveis, com o herói abraçando sua donzela em perigo. Porém, contrariando as expectativas, as duas produções mais originais do estúdio foram lançadas em 2014: Guardiões da Galáxia e Capitão América: O Soldado Invernal, uma space-opera e um thriller político respectivamente, mostrando que o amálgama de filme de super-heróis com filme de gênero era o rumo a ser seguido. Foi na direção deste último que a Marvel encontrou os irmãos Russo, as pessoas certas para dirigir o passo adiante do grupo de heróis em Capitão América: Guerra Civil (2016), um filme com muitos personagens (antigos e novos) e tramas, que não perde, porém, a caracterização nem a história de vista. Não é à toa que a eles foi dada a responsabilidade de comandar o mais ambicioso projeto da Marvel em Guerra Infinita.



O empreendimento é gigantesco. Contando com mais de 20 heróis de 8 franquias diferentes, o filme-evento é o que mais se aproxima das megassagas das histórias em quadrinhos. Pode parecer tudo muito convoluto, mas os irmãos Russo lidam acertadamente com esse excesso, reduzindo ao mínimo as cenas expositivas (há uma sobre as Gemas do Infinito e só) e iniciar a ação já na primeira cena. Quem viu os últimos filmes do Thor, Homem-Aranha, Pantera Negra e Capitão América sabe em que patamar os personagens estão; quem acompanhou todos os 18 filmes sabe já quem são e, mais importante, tem uma conexão afetiva com eles, o que é essencial para o êxito dramático do longa. Muito se tem criticado que ao filme falta desenvolvimento de personagem. Muito pelo contrário: os personagens já foram suficientemente desenvolvidos durante uma década até chegarmos a este ponto. O público já espera pela próxima etapa: ver personagens que nunca se conheceram interagindo pela primeira vez, como os Guardiões da Galáxia e os Vingadores. Outro problema que pode surgir de um filme com muitos personagens é não saber dar espaço para cada um ou não desenvolver coesão na história. Os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely (ambos veteranos no MCU) desatam este nó ao dividir a trama em três linhas narrativas que convergem para o terceiro ato, e só ver quais heróis participarão de cada núcleo já é um deleite para o fã, por que o que interessa para o espectador aqui é mais a dinâmica entre os personagens, velhos amigos seus, do que os grandes setpieces e efeitos especiais.



As cenas de ação, aliás, são nada menos do que espetaculares e levam a narrativa adiante ao invés de torná-la incompreensível, ao contrário daquela outra franquia bilionária. Em um filme com mais de duas horas e meia de duração, é essencial manter o público entretido, e as grandes batalhas do filme, por terem investimento emocional e senso de urgência dado o perigo que enfrentam, nunca soam gratuitas ou desinteressantes. A caracterização não se perde em meio ao espetáculo e à ação; muitas vezes ela os determina, e é isso precisamente o que faz uma cena de ação funcionar. Até o famigerado senso de humor da Marvel, mesmo presente, não atrapalha, sendo diminuído consideravelmente para não minar a tensão da narrativa. Já a fluidez não só das cenas em si, mas do seu entrelaçamento nas três linhas narrativas, é construída de forma quase invisível por Jeffrey Ford e Matthew Schmidt, enquanto a fotografia de Trent Opaloch (que já havia trabalhado com os Russo no filme mais pé no chão do MCU, Soldado Invernal) não se perde em meio a tantos personagens e ao excesso de CGI inerente a um filme como este, sempre mantendo a lógica do espaço em cena compreensível e construindo belos enquadramentos nas cenas mais intimistas, como no flashback que mostra a infância de um personagem-chave. Já a trilha de Alan Silvestri é funcional, remetendo ao trabalho feito nos outros filmes e empolgando quando se ouve o tema musical do grupo.



Toda essa miscelânea de personagens e efeitos especiais, entretanto, não significaria muito se o filme não tivesse um centro dramático. Felizmente, não é o caso, pois o âmago deste filme é Thanos. Em muitos aspectos, pode-se dizer que este é mais um filme do Titã Louco do que dos Heróis Mais Poderosos da Terra. Desde a primeira cena, o roteiro estabelece a verdadeira ameaça que ele representa, mostrando que matar não significa um empecilho para conseguir o que quer. O público fica, então, imediatamente apreensivo pelo destino de seus personagens favoritos, pois ninguém está seguro. O objetivo de Thanos é outro aspecto do personagem que o diferencia do seu vilão-de-filme-de-herói-genérico: ele não quer dominar o universo, mas trazer-lhe equilíbrio. Se, para tanto, ele tiver que cometer genocídio, é só um detalhe. O titã não enxerga a si como vilão, nem como herói, mas como uma figura trágica, um ser messiânico cujo propósito é, em sua essência, benigno, o que quase lhe garante a empatia do espectador quando se percebe o que ele está disposto a sacrificar para conseguir alcançá-lo. De uma forma inaudita, chega-se perto de torcer para que ele consiga o que quer, conforme o filme avança. Tudo isso é mérito não só do roteiro, mas dos efeitos visuais da Industrial Light & Magic e da interpretação magnífica de Josh Brolin, que, mesmo por trás de uma máscara digital roxa, consegue imprimir, sem dar uma só gargalhada megalomaníaca, toda a imponência, poder e, por que não, tragicidade de seu personagem. A personificação do poder absoluto e da relatividade do mal tem uma nova face no Universo Marvel.

Mas, por mais grandioso que o filme seja, há uma temática simples em seu cerne, que já era recorrente em vários outros filmes da Marvel: a paternidade (o que, junto com a quantidade de membros decepados em várias aventuras do estúdio, nos certifica que Kevin Feige é um grande fã de O Império Contra-Ataca). A relação de Thor e Loki com seu pai sempre foi complicada; assim como a de Tony Stark, que, além disso, se viu como uma figura paterna para Peter Parker; Pantera Negra presenciou seu pai morrer só para descobrir que ele não era tão íntegro; além de Peter Quill e Gamorra, que têm vilões muito poderosos e dominadores como pais. Thanos, em última análise, se considera pai da humanidade e todos são vistos por ele como crianças que precisam de orientação para sobreviver. Tony Stark, por sua vez, sendo um futurista e já tendo agido de forma semelhante em A Era de Ultron, sabe que as consequências pra esse tipo de atitude podem ser drásticas e acredita no potencial da humanidade para evoluir (simbolizado no filho que ele planeja ter com Pepper). As relações paternais, portanto, são a força motriz da narrativa e culminam em algumas das cenas mais pungentes de toda a história do Universo Marvel.


Deste modo, Vingadores: Guerra Infinita se constitui não só como um experiência inédita em termos de planejamento, estrutura e produção, mas também como uma obra de impacto emocional surpreendente, ao construir por 10 anos a relação entre estes personagens e a deles com o público, ao mesmo tempo em que tem a coragem de tirar o protagonismo dos heróis e dá-lo a um personagem tão complexo que chamá-lo de vilão é reducionismo. Os impactos do que acontece são enormes, embora, como se trata de um filme de super-heróis, nem todos sejam irreversíveis. Até nisso, portanto, o Marvel Studios conseguiu replicar a euforia de ler uma saga cósmica cheia de personagens maravilhosos em batalhas de vida e morte numa revistinha quando se é criança ou adolescente. É uma pena que a continuação não vai estar na banca no próximo mês. Neste caso, infelizmente, a espera vai ser bem mais longa.