• Luciana Sousa

Arábia | de João Dummans e Affonso Uchoa


Arábia: Uma Ode Ao Trabalho? [Breve Reflexão Sobre o Cair Em Si]


Provavelmente nossa vida terrestre é uma espécie de sono.

Existe um trabalho em conjunto composto de todos os trabalhos isolados

conduzidos pela grande alma central única,

mesmo sem o conhecimento dos trabalhadores,

na direção de um objetivo comum.

Um trabalho de inscrição em pedaço de metal ou pedra,

em um tecido ou folha de papel,

imprime ao objeto força tão sublime que,

de matéria que era, ele se torna ideia.

(Victor Hugo. “O mar e o vento” In Os trabalhadores do Mar, 1866.)


“Aprendi o tempo da terra. A gente prepara muito e colhe pouco”. A frase, que entre outras tantas lembranças evoca “O cio da terra” (1976), de Chico Buarque e Milton Nascimento, em parte traduz o drama de Cristiano (Aristides de Sousa), uma espécie de flâneur ao revés, em Arábia (2018). O filme de Affonso Uchoa e João Dummans conta a história de um caminheiro de mãos e pés calejados em contínua peregrinação por dias melhores. Mas a saga desse viajante solitário, que muito observa e pouco diz, só vem à tona após um incidente na fábrica onde trabalha, em Ouro Preto (MG), e não mais acorda.


Uma vida em segredo salta das páginas de um diário ao acaso descoberto por André (Murilo Caliari), sobrinho da enfermeira local (Gláucia Vandeveld), a única a se preocupar com aquele infeliz cujo único amigo fora demitido, há pouco, da mesma fábrica onde trabalhavam. É assim, em compasso de espera, silêncios e ruídos, além de passeios sonoro-musicais, que a voz em off do protagonista revela o que, até então, estava guardado no diário de um trabalhador braçal. Da vadiagem ao extremo cansaço, com passagem pela prisão, Cristiano percebe que sua vida é um jogo de azar no qual mais perde que ganha, até na melhor de suas lembranças: o amor de Ana (Renata Cabral). Aqui outra importante remissão sonora: "Três apitos", de Noel Rosa. É numa fábrica de tecidos que o peão se enamora da moça letrada do almoxarifado.


E no deslizar do pano colorido, lembrando as bandeirinhas de Volpi; dos muitos rolos de tecido (que poderiam remeter a antigos rolos de filme); na fila do ponto, no refeitório, no jogo e no canto de trabalhadores em hora livre, na oportuna conversa numa lavoura lembrando um companheiro morto, na conversa desinteressada entre dois irmãos, ainda no prólogo do longa, vê-se que Arábia é mais do que parece ser.


De Luiz Tatit e José Miguel Wisnik tomamos a ideia de “paisagem sonora” para o tratamento do som no filme: além da captação direta, o cancioneiro trazido à cena ajuda a montar esse mosaico de sutis a icônicas referências, que vão da música popular brasileira à literatura, com a prosa e a poesia dos mineiros João Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, além de 2 filmes antológicos. Uma das vozes presentes nessa paisagem é a de Almir Sater, superposta à voz do narrador-protagonista. Por duas vezes, Maria Bethânia canta o drama do moço que cai em si quando para de ouvir a fábrica, não mais aquela, e ouve o próprio coração:


Quando o apito

Da fábrica de tecidos

Vem ferir os meus ouvidos

Eu me lembro de você


Via poesia de Noel, caímos nessa poética do devir que não é só de Cristiano, Ana, Cascão, Nato e a enfermeira, mas a de muitos brasileiros invisibilizados, apequenados, coisificados em sua lida e luta diárias. Apertando parafusos gigantes bem próximo de brasas incandescentes, como não lembrar de Chaplin em Tempos Modernos (1936), ou de Eisenstein em Outubro (1928) quando fala do cavalo morto e mostra, em planos de cunho documental, o rosto de outros trabalhadores? Num dos mais belos planos do filme, que sugere a iluminação do protagonista, reconhecemo-nos em sua fala: professores, proletários, comerciantes de pequeno porte, trabalhadores em geral que verdadeiramente sustentam esse imenso caleidoscópio chamado Brasil. Poucos patrões são postos em cena, um deles é mostrado à meia distância num episódio de reclamação trabalhista que acaba sugerindo trabalho escravo ou situação análoga à escravidão. Não há dinheiro para pagar os funcionários, mas para trocar automóvel, maquinário e afins... Se pudesse chamar cada um pelo nome e falar-lhes ao pé do ouvido... Vislumbre platônico na era da máquina (ou seria do mercado financeiro?): quem, de fato, se importa? Dá-se conta que não lhe dariam ouvidos...


Em tempos de perda de direitos trabalhistas a custo assegurados, reformas que só beneficiam o lado mais forte e prejudicam milhões de funcionários e um não menor grupo de desempregados, torna-se imperativa a mensagem de Arábia, país da Ásia cuja raiz semítica traz a ideia de “deserto” (HOUAISS, 2009, p. 170), real ou metafórico. Seria, pois, um filme de nação, como sugere o crítico Pablo Vilaça? Talvez o sonho de uma nação, pois esta, de fato, não há: somos um punhado de árvores à beira da estrada ao fim da qual há uma roça. De um modo geral, desconhecemos (ou não aceitamos) nossa origem, nossos valores, nossos direitos. E quem usufrui de tanta riqueza? Quem efetivamente trabalha para o país lograr êxito algum dia?


No longa mineiro, o sonho de muitos no sono de um só: ele atravessa o deserto sem sair do Brasil porque, onde há sertão, o deserto aí está. Ainda do universo semítico, lembramos Gilgagmesh, ele que o abismo viu e se reconheceu no abismo. Como última imagem, Cristiano lembra de um sonho repetidamente sonhado: ele está sozinho na floresta e, ao longe, escuta vozes dos que estão a sua procura. Aos poucos ele adormece e as vozes silenciam. Ele sabe que ainda está vivo porque respira. E nós?