• Lourenço Becco

Trama Fantasma | de Paul Thomas Anderson


"Pigmaleão vivia solteiro, sem esposa;

e por muitos anos não teve com quem partilhar o leito.

Um dia, com arte espantosa e feliz, esculpiu uma peça

de marfim da cor da neve, com a beleza com que mulher

alguma consegue nascer; e enamorou-se de sua obra."

Livro X, das Metamorfoses, de Ovídio, tradução de Paulo Farmhouse Alberto

O que é necessário para satisfazer o mais exigente dos homens? Alma (Vicky Krieps) sabe que um artista como Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) não aceita menos do que a plenitude. "Cada pedaço de mim", responde ela com um sorriso oblíquo, na primeira cena do estonteante Trama Fantasma, nova obra do mais fecundo diretor da sua geração, Paul Thomas Anderson. O longa, desde seus minutos iniciais, se revela um tratado sobre como a arte, mais do que criar, eterniza a beleza, além de ser um preciso estudo de personagem, pois o processo não está isento de suas obsessões tanto amorosas quanto familiares (afinal, é um filme de P.T.A.). No entanto, apesar da força de seu protagonista (afinal é uma performance de Daniel Day-Lewis), o longa se eleva pela sofisticação de suas figuras femininas e pelo refinamento de sua beleza.


Aliás, se a beleza salvará o mundo, como disse Dostoiévski, aqui Paul Thomas Anderson parece querer salvar o cinema com o deslumbramento que é seu filme. "Primoroso!", diz um personagem e não resta ao espectador nada mais do que concordar. Em uma montagem que não ultrapassa 10 minutos de projeção, PTA nos convida a espiar o início de uma dia significativo na vida de um estilista: a entrega de um vestido. Utilizando longos planos, cortes elegantes, planos detalhes e mudança de eixo (como quando a câmera de repente "olha" para o alto de uma longa escada a ser subida), acompanhamos como, enquanto Reynolds cuida de sua própria imagem na minudente higiene matinal, sua irmã Cyril (a espetacular Lesley Manville) se encarrega dos preparativos para a recepção na casa-ateliê (onde família e trabalho se confundem) com precisão espartana. A mise-en-scene (da sequência e da casa) é muito eficiente e a cliente nobre sai mais do que satisfeita, excitada diz ela, com sua aquisição. Não que a condessa importe. O que interessa é a obra de arte com que o estilista e sua escudeira regalaram a alta-sociedade.


Daniel Day-Lewis, em sua segunda (e talvez última) colaboração com Paul Thomas Anderson, cria um personagem extremamente obsessivo com seu metiê, que tenta se manter afastado de qualquer aborrecimento e conserva um tom de voz cadenciado, rouco e baixo, exceto quando vê sua obra ou vontade ameaçadas. É revelador como ele se aborrece com a interrupção de seu trabalho por alguém com uma bandeja de chá ("O chá se vai, mas a interrupção permanece aqui comigo") ou com o ruído da faca passando manteiga na torrada (aumentado humoristicamente pelo design de som). Responsável por evitar esses e outros dissabores (como dispensar as namoradas do irmão) e manter toda a rotina e suas regras, está a irmã, Cyril, a quem Manville empresta um ar que pode parecer um tanto submisso, mas é inegavelmente soberano, especialmente quando está no controle da situação, sendo filmada pelo diretor com seu rosto ocupando o centro e a dominância do quadro. Ciente do valor que tem, não altera o volume da sua voz mesmo quando faz ameaças diretas, que sabe poder cumprir.


Toda esta dinâmica bem azeitada entra em desarranjo com a presença solar de Alma, que é introduzida de modo brilhante na narrativa. O estilista se encanta com o sorriso e a aparente falta de jeito da garçonete que, após um tropeço, se aproxima dele. Após ter passado no teste de memorizar a longa lista de itens para o almoço dele, Alma (um nome mais do que apropriado) ouve o convite para acompanhá-lo no jantar. Mas, ao que parece, a jovem já esperava por isso, pois já tinha a resposta afirmativa escrita em um papel para o seu "garoto faminto". Após ter falado sobre sua ligação estreita com a mãe morta e sua convicção em permanecer solteiro, Reynolds a leva a seu local de trabalho e, ao invés de despi-la, veste-a com uma peça ainda em processo de feitura. O flerte é interrompido pela entrada abrupta, talvez combinada, de Cyril, que, depois das apresentações, cheira Alma como um predador faria com sua presa e prontamente anota as medidas da moça, ditadas por seu irmão. Fosse este um filme de terror, estaríamos apreensivos pela segurança de Alma, já que a impressão é a de que eles já fizeram aquilo com dezenas de outras jovens antes dela.


Alma, aliás, que tem o talento de se pôr em pé indefinidamente, não se curva diante da egolatria de seus anfitriões da mesma forma como sua intérprete, a ótima Vicky Krieps, não se intimida ao contracenar com os consagrados Day-Lewis e Manville. Muito ciente do amor que sente, também sabe exatamente o que a desagrada, não tem escrúpulo de dizê-lo e responde a cada fala dele como uma criança mal-criada, mas cheia de razão. Mesmo a calma potência de Cyril não é suficiente para dissuadi-la de seus intentos. Krieps nos revela essas facetas de sua personagem de forma sutil e gradativa, de modo que a moça apaixonada à primeira vista não desaparece, mas se mostra, ainda, decidida e astuciosa. Determinada a assumir o protagonismo feminino na vida de seu amado e da sua, ela toma uma medida drástica e incongruente, mas eficaz. Ao dominar o contexto de servidão, a mulher alcança a supremacia de estar definitivamente no controle. Este equilíbrio frágil só é obtido através de um conhecimento profundo tanto das fraquezas e necessidades do homem como das distâncias que a mulher está disposta a percorrer para manter o sabor do jogo amoroso sem abdicar de si mesma.


O regente desta precisa sinfonia, Paul Thomas Anderson, descortina seu engenho em cada fotograma e palavra, porém sempre privilegiando a história e os personagens, e nunca a exibição do talento por si só. Do close longo (como o que sai de debaixo de uma mesa e se aproxima lentamente do casal em um momento-chave) ao plano detalhe (aqueles que mostram os dedos do estilista marcados com furos de agulha), nenhum quadro é desperdiçado por que são todos para a expressão daquele mundo fascinante e seus personagens. PTA constrói aqui o seu filme mais refinado, com um perfeccionismo acentuado, confirmando a sua posição, ouso dizê-lo, como herdeiro intelectual de Kubrick, o que já era perceptível em sua outra colaboração com Day-Lewis, Sangue Negro. O diretor não deixa de referenciar a obra de Hitchcock ao recriar o plano do voyeur olhando pelo buraco na parede de Psicose (1960) e, mais importante, ao elaborar de novo a trama de Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940), na macroestrutura do roteiro, intensificando os tons freudianos que só são insinuados em seu antecessor. Anderson encontra par em seu virtuosismo ao repetir sua parceria pela quarta vez com o compositor Jonny Greenwood, que cria uma trilha sonora tão inebriante em sua persistência e elegância, que sentimos falta dela nas cenas sem ela, como um personagem da trama, não uma música que a acompanha.


Pigmaleão, na narrativa grega, ao apaixonar-se pela estátua que ele próprio esculpira, pede à deusa do amor que a presenteie com o dom da vida. Woodcock não tem necessidade de preces. A mulher que ele veste com sua obra e, em uma afortunada metonímia, torna-a também obra sua, já é ela mesma insuflada com um espírito indômito, uma alma singular. O conflito entre essas duas individualidades nasce do fato de que nenhuma delas está disposta a abrir mão da sua própria maneira de amar. Estabelece-se, então, um acordo tácito e silencioso entre os dois que passa a moderar essa estranha relação, em que o criador se transforma na criatura, como o amador na coisa amada.