• Lourenço Becco

Jersey Boys | de Clint Eastwood


Esse filme deve ter todos os clichês de cinebiografias musicais de Hollywood, não é? Pode apostar que sim, cada um deles. Mas é um filme mais profundo como o "Inside Llewyn Davis", dos Coen? Não, longe disso. Então tem pessoas cantando no meio da rua, fazendo coreografias elaboradas e conversando com música? Não, de jeito nenhum. Não é um musical neste sentido. Mas então deve ter interpretações acima da média, não é? Tirando o Christopher Walken, não. Mas então deve estar entre os melhores do Eastwood? Apesar de ser inusitado, não, não está. Então por que ver? Por que é um filme divertidíssimo! As músicas são maravilhosas, e você vai sair do cinema cantando. O filme é baseado em um musical homônimo da Broadway que fez muito sucesso, e o tio Clint não se fez de rogado, chamando boa parte do elenco do show para participar do filme. Então todas as músicas, com suas harmonias complicadíssimas (é o Four Seasons afinal de contas), foram gravadas ao vivo no set, durante a cena (CHUPA, Tom Hooper!). O protagonista, vivido pelo novato (no cinema) John Lloyd Young, como ator, é um excelente cantor, mas excelente mesmo. Então, se você gosta de música, principalmente a pop dos anos 60, pode ir sem medo de não se divertir e depois ouça a trilha sonora. Só pelo aspecto musical, já vale o ingresso. O público pode até estranhar um filme tão musical dirigido pelo Eastwood, mas os fãs sabem que ele é músico e foi responsável pela trilha sonora de vários de seus filmes. O filme conta a história da formação, ápice e dissolução do Four Seasons, o grupo americano que fazia frente à invasão britânica dos Beatles (mas nunca tiveram uma fase psicodélica). A recriação de época, os figurinos, a direção de arte e fotografia são espetaculares, recriando o estilo e o espírito da época, e aqui se vê a mão cuidadosa de um diretor velha guarda como o Eastwood. É tudo muito lindo e muito bem filmado! A primeira parte, a mais divertida, pode ser descrita como uma versão musical de "Os Bons Companheiros", com direito à quebra da 4ª parede e Joe Pesci (o filme tem uma referência sensacional à cena mais famosa do filme de Scorsese). A segunda parte é menos interessante, mas é mais dramática (até o ponto em que um filme como este pode ser dramático), culminando na cena em que a música mais famosa deles é tocada em um momento-chave para o protagonista (Eastwood a guarda até o timing certo pra emocionar o espectador, manja muito). Então, não, não é um primor de roteiro, mas o Eastwood coloca tudo num patamar acima, por que ele é o Eastwood e sabe fazer um filme de forma leve, mas nunca de forma desleixada. Ah, e tem o Christopher Walken fazendo um gângster! O que mais você pode querer de um filme?