• Lourenço Becco

Álbum de Família | de John Wells


Sou um adepto do melodrama. Mas, para um melodrama funcionar, é condição indispensável um bom elenco. E, oh boy, nesse aqui, você não tem do que reclamar. Encabeçado pela mais que oscarizada Meryl Streep, o elenco é, sem dúvida, a pedra de toque deste "Álbum de Família".


Baseada em uma premiada peça de Tracy Letts, também encarregado do roteiro, "August: Osage County", como o título original (tirado de um poema de Howard Starks) diz, se passa no Condado de Osage em um quente mês de agosto, quando há uma forçada reunião familiar, que, como não pode deixar de ser nesses casos, dá lugar a muita roupa suja sendo lavada em público (ou na mesa do jantar, pra ser mais específico).


Apesar de o roteiro contar com muitos personagens, todos têm um momento de destaque, sendo que os melhores são do Benedict Cumberbatch (que faz um personagem que toca por sua meiguice e vulnerabilidade, o que só comprova sua versatilidade ao o compararmos com Sherlock ou Khan) e do Chris Cooper, com uma cena maravilhosa de embate verbal que deveria lhe render uma indicação ao Oscar, juntamente com Margo Martindale, interpretando sua esposa megera e provando que é tão capaz no drama quanto na comédia.


Falando na estatueta dourada, a única interpretação que destoa do resto é a da Julia Roberts, que exagera na cara fechada e nos trejeitos pra mostrar a profundidade de sua composição, com os únicos objetivos de: a) ganhar uma nomeaçãozinha, b) não fazer feio na frente da Meryl Streep, sua atriz predileta (como ela já afirmou, entre lágrimas, em mais de uma entrevista). Assim sendo, sua personagem só consegue causar alguma empatia no fim da projeção, mas já é tarde demais.


O resto do elenco se sai muito bem com o pouco que lhe é dado, contando com uma (bem) crescida Pequena Miss Sunshine, uma Juliette Lewis muito assustadoramente envelhecida (principalmente pra aqueles que sempre a viram como a ninfeta de "Cabo do Medo") e um Ewan McGregor eficiente, com um personagem que poderia ter mais tempo de tela. Mas o grande destaque do elenco secundário (que é secundário só no nome) é Julianne Nicholson, uma atriz advinda da TV que pode fazer uma bela carreira no cinema sem medo de contracenar com grandes nomes.


Bem, 3 parágrafos falando somente do elenco, e eu nem cheguei na Meryl Streep ainda. Sua interpretação aqui dividiu opiniões, com muitos críticos afirmando que, pela primeira vez, a atriz se entregou ao overacting, ficando um tom acima do necessário. A interpretação é exagerada e histriônica mesmo; no entanto, nada que o papel não peça, pois ela interpreta uma mulher à beira de um ataque de nervos, cuja doença (um câncer de boca) é uma nada sutil metáfora de todo o veneno que ela destila indistintamente, fazendo questão de machucar seus familiares com sua mais eficiente arma: as palavras. Dito isto, ela é a única atriz (Sandra quem?) que pode ameaçar o Oscar da Cate Blanchett por "Blue Jasmine". A Academia deveria seriamente pensar em proibir Streep de concorrer, por que assim é covardia.


Além do elenco e da direção competente, outro grande destaque do filme é o roteiro, que, adaptado de uma peça, utiliza os amargos diálogos para construir as relações e os rancores entre os membros de uma família cujas fundações, baseadas em mentiras e mágoa, estão para entrar em colapso. O auge dessa dinâmica é visto na cena da ceia em que todo o elenco se encontra reunido e algumas verdades (não todas) são ditas em alto e bom som. Como eu disse, um prato cheio para quem gosta de um bom melodrama com uma pitada de humor negro.