• Lourenço Becco

Anna Karenina | de Joe Wright


Anna Karenina não é o desastre que alguns apregoaram, longe disso: é bem melhor do que "Lincoln" e "Os Miseráveis" (Wright merecia mais a indicação que Spielberg) por exemplo. Mas há dois grandes defeitos que o impedem de alcançar todo o seu potencial: Keira Knightley e o roteiro de Tom Stoppard. Nos outros filmes que Knightley fez com Wright, parece que ele conseguia domar sua tendência ao exagero, às caras e bocas, mas, infelizmente, neste aqui a moça se entrega com gosto, e sem restrições, ao overacting. E dá-lhe caretas, aquelas piscadinhas pra ver se a lágrima cai, projeções do queixo trêmulo entre outros tiques. A personagem, de mulher forte e decidida, passa a ser uma mulherzinha mimada e irritante, praticamente uma Anna Karenina versão Malhação, comprometendo toda e qualquer cena em que ela tente gerar alguma empatia e comover o público. Aliás, esse é o problema: vê-se que ela está tentando demais. Quanto ao roteiro: bem, amigos, é o cara que escreveu "Shakespeare Apaixonado"... Toda aquela dualidade do romance entre a corte e o campo, a vida devotada a Deus ou à Aristocracia, a felicidade de Lievin e a tragédia de Anna estão lá, mas extremamente diluídos, tudo muito "caldo de bila" como se diz por aqui. A direção e tudo ligado à direção de arte e ao figurino do filme compensam bastante essas falhas. Em primeiro lugar, a decisão de mostrar todas as cenas que se passam em interiores num palco, como se a aristocracia fosse uma eterna peça teatral, enquanto que as cenas do campo são feitas em locações reais, é não só acertada, mas muito inteligente. As cenas inicias, com uma mudança rápida de cenários e figurinos, lembram sobremaneira a dinâmica teatral e mostram o perfeccionismo de Wright, que consegue fazer transições inspiradíssimas e transmitir beleza tanto no palco (a repartição pública lembra muito "O Capote" de Gogol) como em longas externas (um frame, aliás, que remete a um quadro de Monet, é de encher os olhos). A direção de arte também ressalta essa dinâmica, se esmerando em recriar um ambiente russo, e a equipe de figurinista mereceu o Oscar com que foi premiada. O elenco secundário é outro ponto forte do filme (com exceção do Aaron Taylor-Johnson, claramente jovem demais para o papel que interpreta, o que só reforça aquele clima de novelinha adolescente a que me referi). Olivia Williams (sempre excelente), Matthew Macfadyen (pena que apareça tão pouco), Alicia Vikander são alguns que defendem seus papéis muito bem. Mas o destaque vai para dois atores: Jude Law e Domnhall Gleeson. O primeiro se afasta aqui da seus papéis de galã, mostrando-se austero, envelhecido e até calvo, em uma interpretação contida, mas tão eficiente que faz com que o público simpatize mais com ele do que com a protagonista (o que não ocorre normalmente na leitura do livro). Já Gleeson, mais conhecido por fazer os gêmeos da série Harry Potter, mostra aqui que tem estofo pra buscar o seu lugar no seleto grupo do cinema britânico. Seu Lievin é o mais bem construído personagem do filme, é a transposição daquele que Tolstói construiu pra ser ser alter-ego e porta-voz. O filme volta a ter vida quando se foca nele e em sua trama, que, de secundária, passa a principal por ser tão melhor construída e interpretada que a da protagonista. Enfim, um filme bom, mas que sofre por falhas pontuais, o que acaba por reafirmar a velha máxima de que cinema de qualidade, mais que tudo, é uma arte que se equilibra em um tripé: roteiro, atuação e direção.